Por Uilson Júnior Francisco Fernandes
Enquanto muitos teóricos perdem tempo em conceituar rigorosamente o teatro como pós-dramático, como trabalho físico do ator ou mesmo como espaço de experimentação, alguns grupos ainda conseguem de forma quase impercepível explicitar algo muito simples, que infelizmente é esquecido por várias perspectivas teatrais que não se centram na capacidade de fazer sonhar.
O sonho é fruto da imaginação, mas o que é a imagem em ação se não nada mais do que a capacidade humana de atribuir significado às coisas mais simples de nossa vida cotidiana: uma panela-mochila, uma luneta que tudo vê, um velho galão retirado do lixo, e um tambor que guarda o mais singelo dos medrosos, esses são apenas alguns dos famosos e complexos elementos cênicos utilizados pelo grupo Caixa de Histórias, de São José dos Campos, para nos contar a real e divertida saga da Fabulosa Viagem de Duda e de Lola em Busca da Irmã perdida ou..Cadê Kika?
Imaginar é a forma mais pura e crítica de se pensar, e que nos perdoem os racionalistas de plantão, não é necessário se prender eternamente em palavras simples como engajamento e mímesis (obra de arte enquanto cópia) para se partilhar o fenômeno teatral. Este se manifesta até mesmo na doce flauta que ecoa de um colorido cata-vento, no barulho que uma grande geringonça faz ao ser sacudida apontando o caminho a ser seguido até Kika.
A musicalidade da peça não perde em nenhum aspecto a qualquer fria produção de clássicos da literatura universal, e em tempos de Avatar e de tecnologia 3D que tanto facinam as crianças, o Caixa de Histórias consegue de forma simples e coesa fazer pensar, recolocar a imagem em ação, repensar de que a TV não é algo tão maligno como a guerra, que rir de um abajur apagado não é comparável à loucura de perder a voz em nome do patrão nosso de cada dia.
Mas onde está Kika? Está no momento certo de jogar com o público; está no distancimento que consegue fazer até mesmo crianças, que não são adultos em miniaturas, pensar que aquilo é sonho e que elas já sonharam e podem sonhar; está nos pais constrangidos e risonhos em pensar que de fato há algo além da tela do coputador e dos jogos eletrônicos no cotidiano de seus filhos.
Resgatar o pensamento é voltar a sonhar, e por mais que a estória pareça longa para crianças sempre cansadas e impacientes, nada impede que no fim do espetáculo uma grande festa seja feita com os brinquedos artesanais deixados na entrada do teatro e que por incrivél que pareça nem sequer foram notados pela maioria apressada de espectadores na entrada deste frio lugar.
Falta alguma coisa? Falta que os conceitos tomem vida e se permitam sonhar em nossos complexos pensamentos do dia-a-dia; falta que encontremos Kika seja no palhaço do circo ou mesmo numa velha senhora que nos encanta toda noite a oferecer docinhos e a dizer que tudo vai dar certo; falta que o Marionete do Homem mais medroso do mundo mexa as pernas – se bem que juro que ele continua andando e viajando em seu balão até agora. *
* Uilson Júnior Francisco Fernandes Observação é afeito às letras, à filosofia, ao teatro de rua e aos mamulengos.
Observação: esta crítica é postada após a Mostra por falha do moderador, o jornalista Valmir Santos, que se perdeu no fluxo de mensagens na sua caixa de email. Felizmente, nunca é tarde para fruí-la na eterna efemeridade do teatro.