Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia

18/03/2010

Cicatrizes da ausência de uma face

Filed under: Críticas Oficina Valmir Santos — Associação de Teatro de Uberlândia @ 17:10

ADREANA OLIVEIRA

Ao ler a sinopse de “Doralinas e Marias”, do grupo Engenharia Cênica de Salvador (BA), apresentada na 6ª Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia, algumas pessoas podem não se interessar. Mas ao chegar, sem expectativas, ao teatro, existe a chance de se surpreender com uma história que, mais do que falar da mulher, traz a relação que temos com aquele que dorme de olhos abertos: o tempo.

Doralina (Meran Vargens), tem uma alma torturada pela ausência de uma face: a da própria mãe, que morreu aos 17 anos, durante o parto de Doralina. As amarguras desta mulher de 53 anos são conhecidos por sua neta, Alice (Daniele França). As torturas de Sophia, papel na Mostra da diretora Cecília Raiffer, também estão no diário.

“As palavras ditas podem ser apagadas pelo vento, as escritas ficam, exorcizando o presente frágil.” Passado, presente e futuro ganham corpo em Miguel, de Luiz Renato, que representa o tempo. A cada 17 anos uma tragédia se abate sobre essa família.

“Cantar é sempre um problema”. A canção lembra a chegada da tempestade que levou o marido de Doralina. O vento traz a lembrança do desaparecimento do marido de Sophia, o mesmo vento que pode levar a jovem Alice, de 17 anos, embora. Ela quer voar.

Incorporado ao figurino de Sophia, uma trança gigantesca dava um ar de Rapunzel e um peso a mais para a personagem, peso que ela não levaria por muito tempo. No vestido de Doralina, muitos bolsos para carregar o diário, folhas para o chá, uma caneca, mas não tinha como preencher um espaço com uma fotografia da mãe, Doralice. Alice tinha um vestido inspirado na Alice de Lewis Carroll. Seria ela a primeira a fugir daquela maldição?

A casa que envolve o jardim, ou o jardim que envolve a casa, a árvore de goiabas vermelhas e azuis, a chaleira e o regador suspensos e usados de forma pouco racional e um bambolê transformado na lua que Alice queria visitar fazem parte de um cenário pouco atrativo.

Porém, o texto, que para alguns dos cerca de 200 espectadores que estavam no teatro Rondon Pacheco, soa repetitivo, toma uma proporção diferente para cada um, mas parece que dialoga com a maioria, já que aplaudiram de pé o espetáculo.

Quando Doralina dorme, deixando cinco páginas em branco no diário, você acorda. Aquele sorriso se apaga, a amargura da personagem, que não derramou uma lágrima, continua a incomodar e você se pergunta como você tem lidado com o tempo nesta morte nossa de cada dia.

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