Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia

17/03/2010

Qual é a sua jaula?

Filed under: Críticas Oficina Valmir Santos — Associação de Teatro de Uberlândia @ 18:55

Por Roseli Maria Battistella

Em setembro de 2001 Juliana Galdino, dirigida então por Antunes Filho em “Medéia”, pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT), comentou em entrevista para o jornal “Folha de S.Paulo”, no caderno “Ilustrada”, sobre sua personagem: “Dentro de contextos-limites, as palavras adquirem outras camadas, cada uma traz sua musicalidade”.

Passados nove anos e agora em outro estágio de sua carreira, na instigante peça “Comunicação a uma Academia”, do grupo Club Noir, dirigida por Roberto Alvim, Juliana atinge um apuro técnico incontestável que lhe rendeu a indicação como melhor atriz ao Prêmio Shell São Paulo de 2009.

Mais uma vez ela encontra novas camadas em nuances de voz conferidas ao símio que relata a uma academia como se tornou humano. Um conto do livro “Um médico rural – pequenas narrativas”, de Franz Kafka, publicado pela primeira vez em 1919 e que permanece atual, pois suscita questões reflexivas recorrentes ao nosso mundo contemporâneo, principal motivo pela escolha da sua montagem sem adaptações pelo Clube Noir.

A utilização de um cenário limpo funciona bem: uma parede manchada de verde musgo, um cervo empalhado num canto, um caixote de três lados e um cordão de isolamento separando o público da cena. Elementos simples, mas que vão além do decorativo. O fundo remete realmente às paredes austeras das clássicas salas de instituições conservadoras, o caixote lembra a todo instante do local de onde veio o macaco.

Uma corda nos separa do animal de outrora – quem é o prisioneiro?Nós ou ele? O cervo empalhado imponente é um troféu de caça, sinal de “superioridade” da raça humana sobre outros seres. Troféus, como são todos os diplomas e prêmios que o homem coloca em suas paredes para mostrar sua superioridade aos demais, títulos que o lembram que dentro de seu condicionamento  ele é o melhor.

A iluminação colabora com imagens de uma estética primorosa, acentuadas por blackout a todo instante, mas que pontuam o texto com silêncios .Tudo é muito simples, mas significativo, maquiagem, figurino e elementos de cena, nada é feito ao acaso. Percebe-se a preocupação com os detalhes. Uma encenação que chega ao minimalismo pela economia de gestos da atriz que, na imobilidade de seu corpo constrói uma partitura sonora superior.

Até o guarda que pode parecer desnecessário à cena, já que não emite som algum e simplesmente coloca e tira uma corda de isolamento e se mantém na mesma posição, tem uma função. Ele é a personificação de força, como são todos os guardas, mantendo a ordem vigente. Muitas vezes invisíveis, estão armados e entram em ação para qualquer quebra de normas e padrões estabelecidos pela sociedade, lembrando que devemos andar conforme nosso adestramento nos permite

“Eu não tinha saída mas precisava arranjar uma, pois sem ela não podia viver”, avisa o narrador, a certa altura. ”Não, liberdade eu não queria. Apenas uma saída; à direita, à esquerda, para onde quer que fosse…”

Lastima–se o macaco que agora, considerado humano perde a  liberdade da sua essência. Quantas vezes perdemos nossa essência e nos afastamos da nossa natureza?

Creio que Roberto Alvim, “o diretor”, a cada nova montagem se aproxima mais da sua.

“E eu aprendi, senhores. Ah, aprende-se o que é pre¬ciso que se aprenda; aprende-se quando se quer uma saída; aprende-se a qualquer custo”.

* Roseli Maria Battistella é atriz, pesquisadora do teatro e espectadora crítica participante da oficina com o jornalista Valmir Santos durante a Mostra.

1 Comentário »

  1. Cara Roseli, muito obrigado pelo carinho e apuro do seu olhar sobre nosso trabalho. Sua análise foi uma das mais profundas acerca do espetáculo. Se vier à São Paulo, nos procure aqui no CLUB NOIR para conversarmos mais.
    Um grande abraço,
    Juliana Galdino e Roberto Alvim

    Comentário por juliana galdino — 09/04/2010 @ 22:11


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