Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia

17/03/2010

O espelho kafkiano do Club Noir

Filed under: Críticas Oficina Valmir Santos — Associação de Teatro de Uberlândia @ 18:57

Por Adriana Muniz Retamal

A “racionalidade” humana vista através da domesticação de um macaco.
A peça “Comunicação a uma Academia”, interpretada por Juliana Galdino e Gê Viana, tratou com equilíbrio, nuances e um conjunto cênico elaborado a verdadeira arte teatral. Como todo bom texto de Kafka, poderíamos pensar: “Ah, mas também é Kafka né? Muito pesado…”.

O diretor Roberto Alvim (que também fez cenário, iluminação, figurinos e trilha sonora) primou pelo compassado ritmado das cenas com um minimalismo temático afrancesado, fazendo jus ao nome Club Noir. Todo o clima criado nos dava a impressão de que também estávamos numa jaula Obviamente, bem decorada, como muitos cenários “de nossas vidas”.

A atuação de Juliana Galdino é de um talento e de uma poesia visual que denota o total profissionalismo da atriz. A transformação do macaco em ser humano é evidente e pela grande atuação chega até a ser justificável. Seu trabalho possui um nível vocal muito elaborado e de total entrega. Por um momento, já sabia quantos atores seriam em cena, mas, mesmo assim, estava à espera da entrada de Juliana. Eis um elemento fundamental, quando um ator realmente se entrega ao personagem: era possível ver nos olhos do macaco-gente todo a dor da transformação, uma tristeza fundada no total abandono de sua natureza.

Existem outros elementos do conjunto cênico que merecem destaques: a separação cênica da platéia, uma corda que ora nos colocava como observador ora como observados; o soldado quase inútil (mas necessário para controlar o instinto animal) militarmente movimentando-se; a ausência de luz criando um “silêncio visual”, luz essa que “enjaulava” o macaco-gente; e uma parede ao fundo com seu papel de parede francês que dava uma sensação claustrofóbica.Por alguns momentos tive a impressão que “no espelho kafkiano” me enxergava, uma vez que: será que somos realmente livres?

Uma peça para se assistir mais de uma vez, e se faz necessário vê-la na montagem original, em São Paulo, na qual apenas 48 pessoas assistem ao espetáculo. A adaptação para a Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia SESC-ATU foi extremamente carinhosa com o público local, trazendo até nossa cidade um espetáculo profundo, denso e sensivelmente criado, mas que se perdeu um pouco na profundidade do Teatro Rondon, principalmente para quem estava nas últimas cadeiras. Ainda assim, o esforço de Juliana para projetar a voz ao fundo foi notável.

É importante enfatizar o esforço da ATU (Associação de Teatro de Uberlândia) no sentido de trazer peças de diferentes estilos para atingir públicos diversos, almejando a democracia da cultura e trazer o foco para a cidade de Uberlândia, tirando do famoso eixo Rio-São Paulo. Ainda com muitos detalhes a melhorar.

DO ESPECTADOR

O público honrou à altura o nível do espetáculo emprestando seu silêncio arrebatador. Sinceramente, antes de ir à peça, lendo o texto de Kafka, originalmente um conto, pensei: vai ser difícil! Mas o público uberlandense mostrou-se atento, silencioso e muito educado, o que é fundamental para o teatro, o respeito ao trabalho de todos necessita dessa atenção e desse carinho. Os profissionais envolvidos ficaram meses criando todo e qualquer detalhe para que a atmosfera “real” fosse montada para nosso prazer, mesmo que ainda sejam prazeres questionadores, como é uma montagem de um texto dessa profundidade.

Ainda temos muito o que aprender com Kafkas, Julianas, Robertos, Marias… E principalmente com os macacos, aqui representando a classe “irracional”. Mas são espetáculos assim que nos movem e contribuem para questionamentos sociais e pessoais, alguns do tipo: será que o ser humano realmente evoluiu? Essa domesticação desenfreada dos animais é boa? Ou nos espelhamos nessa domesticação e vemos como somos bons em tudo, até em transformar macacos em homens? Bom, que cada um tenha os seus questionamentos. E aí vai mais um: você já se olhou no espelho kafkiano hoje

* Adriana Muniz Retamal, amante das artes e designer, é espectadora crítica participante da oficina com o jornalista Valmir Santos na Mostra.

1 Comentário »

  1. Cara Adriana, sua crítica foi profunda e muito atenta. Ficamos muito felizes com suas palavras, por sua observação em prospecção acerca dos detalhes da obra.
    Quando vier à São Paulo, nos procure no CLUB NOIR.
    Um grande abraço e muito obrigado,
    Juliana Galdino e Roberto Alvim

    Comentário por juliana galdino — 09/04/2010 @ 22:15


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