Por Talita Valarelli
Doralina, Doralice, Sofia e Alice. Mas cadê a Maria? Bem, a Maria não apareceu, talvez chegou atrasada ao espetáculo e não a deixaram entrar. Mérito da organização pela sua pontualidade britânica? Não exatamente, uma vez que as mulheres à beira de um ataque de nervos vieram dar o ar da graça depois de quase meia hora de espera, fumaça artificial e muitos espirros “riníticos”.
Sem deixar que isso abatesse o público, acostumado aos atrasos, o espetáculo se inicia e por um momento promete ser memorável. A questão é que nem tudo é o que parece.
Com um cenário simples, aparentemente funcional e remetendo a devaneios, figurinos óbvios e uma iluminação pontuada, quase chapada, três gerações de mulheres solitárias passam 50 minutos dizendo lirismos repetitivos e fora de compasso, enquanto um personagem representante do Tempo tenta reproduzir movimentos corporais, algo entre a dança contemporânea e a viagem de ácido do já senil elenco de “Hair”.
O texto se perde logo no início. A falta de amarras deixa pensamentos soltos e perdidos no ar, uma cólica sentida aqui, uma mãe inexistente ali, uma receita de chá de não sabemos o que e… Será o fim? Não, não, logo a luz se intensifica e dá-lhe mais pensamentos soltos sobre o dia ser camomila ou boldo com chá verde.
À medida que a peça avança seu ritmo continua parado e nada de novo acontece, uma vez que o conflito não se estabelece, aliás, nem chega a aparecer, transformando o tempo, aquele do relógio que segue o horário de Brasília, em algo pesado e que se move lentamente e com dificuldade, contrapondo com o Tempo, personagem da trama, que voa como uma borboleta com bronquite.
Ao final do espetáculo fica a sensação de onde foi parar o Teatro com seus questionamentos mesmos que intrínsecos, além da pergunta que não quer calar, o que afinal foi feito de Maria?
* Talita Valarelli é atriz e espectadora crítica participante da oficina com o jornalista Valmir Santos durante a Mostra.