Valmir Santos
Jornalista e pesquisador do teatro
O espectador de Uberlândia que assistiu ao espetáculo “Comunicação a Uma Academia”, do grupo Club Noir, na abertura da Mostra de Teatro, vai deparar-se com uma cena radicalmente oposta em “Inveja dos Anjos”, montagem da Armazém Companhia de Teatro escalada para o encerramento.
Se a produção paulista prima pelo minimalismo, o projeto do coletivo do Rio arrebata pela partitura de tom espetacular que o diretor Paulo de Moraes imprime à cena, uma espécie de teatro total que não desequilibra suas fontes de base.
A imanência poética das criações da Armazém pode ser atribuída à simbiose absoluta entre ator, palavra, cenografia, luz e trilha sonora. Ponha uma boa história nas mãos de Moraes e verás que linguagem ele é capaz de conceber para comunicar-se com o público. Feito em grande parte tributário do excelente núcleo de intérpretes (Patrícia Selonk, Simone Mazzer, Thales Coutinho e demais companheiros).
Após visitar recentemente Bertolt Brecht e Nelson Rodrigues, a Armazém volta-se às reminiscências paranaenses (nasceu em Londrina 22 anos atrás). Aspectos autobiográficos juntam-se aos voos ficcionais na dramaturgia hibrida de Moraes e do poeta Maurício Arruda Mendonça. Eles radicalizam as formas narrativa e espacial para falar de laços de família, amizade, amor e dor.
A ação dramática é determinada pelo espaço cênico atravessado por trilhos de trem, uma imagem da infância de Moraes materializada como o lugar do entroncamento para a narrativa fragmentada.
Desde o início, nota-se que a suspensão da realidade é literal. O drama deseja estimular o espectador a “editar” enquadramentos, como se lhe coubesse acompanhar o movimento dos vagões no filme da vida que passa ligeiro em situações-limites.
Com “Inveja dos Anjos”, a 6ª Mostra chega ao fim após 11 dias e 11 noites de uma programação pautada pelo estranhamento e pela pluralidade (ambos bem-vindos) nas formas, conteúdos e temas. Citam-se os exemplos das montagens de “Manter em Local Seco e Arejado”, do Grupo [PH²] Estado de Teatro, dirigido por Rodrigo Batista, e “O Caderno da Morte”, da Companhia Zero Zero, por Alice K.
Mesmo ocupando o assento frontal de um teatro à moda italiana, o espectador foi instado, quase sempre, a contracenar de outra maneira, a desmontar as próprias convenções do olhar, do sentir e do fruir o teatro. E isso não é pouco.