Por Eduardo Humberto Ferreira
O espetáculo “Doralinas e Marias”, do grupo Engenharia Cênica, de Salvador, trouxe para a Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia outra visão do fazer teatral que fomenta uma reflexão sobre a cara ou estilo que o evento possa assumir, ou talvez significar essa busca de identidade.
Foi um espetáculo que gerou incômodos em vários momentos, a começar pela entrada da platéia que, envolta à crua luz de serviço e de muito incenso/fumaça, foi tomando seus lugares. Começava aí outro momento guiado pela sorte, pois quem optou por se acomodar mais ao fundo do teatro logo percebeu ter feito uma má escolha, uma vez que a não-ressonância e projeção dos atores mal chegavam às primeiras fileiras, estas mesmas que inicialmente torciam para que tudo desse certo no decorrer do espetáculo.
O que chama a atenção em alguns momentos isolados são as imagens construídas em cena, quando acontecia podia-se notar uma relação mais viva dos atores com eles mesmos, como o cenário, a iluminação e até mesmo com o figurino, mas não havia um suporte que pudesse sustentar isso além de alguns segundos.
A marcação de cena mostrava-se muito insegura e sempre quebrava a ação que tentava de alguma maneira surgir, mas não se sobressaía, deixando clara a ausência de conflito, levando o espetáculo a ser marcado pela linearidade.
O trabalho de corpo é visivelmente precário, com movimentos incompletos que prejudicam a plasticidade da cena, o que de certa forma deixa o espectador inseguro e facilmente o trabalho como um todo possa cair em desatenção.
A figura do Tempo, com a caracterização, movimentação cênica e relação com as demais personagens perdeu força como um elemento poético que poderia ter sido, não se impondo como um agente determinante dentro do contexto da encenação proposta.
* Eduardo Humberto Ferreira, estudante de teatro, é espectador crítico participante da oficina com Valmir Santos durante a Mostra.