Especial Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia (6° Edição) – Parte 1
Especial Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia (6° Edição) – Parte 2
Especial Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia (6° Edição) – Parte 3
Especial Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia (6° Edição) – Parte 1
Especial Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia (6° Edição) – Parte 2
Especial Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia (6° Edição) – Parte 3
Os textos postados hoje no blog da Mostra de Teatro chegam ao público como um exercício resultado da nossa breve convivência, em três manhãs, e da disponibilidade de boa parte dos participantes em trazer suas palavras à luz, a partir de algumas apresentações que acompanharam.
Diante de qualquer manifestação cênica, cada um de nós encontrará uma lente para leitura. Sobretudo, uma lente mediada não só pela biografia de espectador como sua própria história de vida, sua visão de mundo. Criticar é também municiar-se de instrumentos para tal – percepções que, muitas vezes, repetimos, vinculam-se à trajetória pessoal.
Entre os autores dos artigos, estão espectadores que pela primeira vez debruçaram-se sobre uma análise de espetáculo. Houve também quem já fosse mais familiarizado com o universo da criação e da recepção nas artes cênicas.
Como exercício, reforçamos, é que os textos são partilhados aqui. Os próprios autores são expostos à crítica e à autocrítica, da mesma maneira como se deram ao trabalho de pensar a criação do outro.
Quem sabe, tenhamos semeado potencialidades. Nenhum dos textos se arvoram aqui como juízo de valor estanque. Afinal, existe a minha verdade, a sua verdade, a verdade do outro…
E viva liberdade do exercício!
Abraços.
Valmir Santos, jornalista ministrante da oficina Espectador Crítico.
Por Uilson Júnior Francisco Fernandes
Enquanto muitos teóricos perdem tempo em conceituar rigorosamente o teatro como pós-dramático, como trabalho físico do ator ou mesmo como espaço de experimentação, alguns grupos ainda conseguem de forma quase impercepível explicitar algo muito simples, que infelizmente é esquecido por várias perspectivas teatrais que não se centram na capacidade de fazer sonhar.
O sonho é fruto da imaginação, mas o que é a imagem em ação se não nada mais do que a capacidade humana de atribuir significado às coisas mais simples de nossa vida cotidiana: uma panela-mochila, uma luneta que tudo vê, um velho galão retirado do lixo, e um tambor que guarda o mais singelo dos medrosos, esses são apenas alguns dos famosos e complexos elementos cênicos utilizados pelo grupo Caixa de Histórias, de São José dos Campos, para nos contar a real e divertida saga da Fabulosa Viagem de Duda e de Lola em Busca da Irmã perdida ou..Cadê Kika?
Imaginar é a forma mais pura e crítica de se pensar, e que nos perdoem os racionalistas de plantão, não é necessário se prender eternamente em palavras simples como engajamento e mímesis (obra de arte enquanto cópia) para se partilhar o fenômeno teatral. Este se manifesta até mesmo na doce flauta que ecoa de um colorido cata-vento, no barulho que uma grande geringonça faz ao ser sacudida apontando o caminho a ser seguido até Kika.
A musicalidade da peça não perde em nenhum aspecto a qualquer fria produção de clássicos da literatura universal, e em tempos de Avatar e de tecnologia 3D que tanto facinam as crianças, o Caixa de Histórias consegue de forma simples e coesa fazer pensar, recolocar a imagem em ação, repensar de que a TV não é algo tão maligno como a guerra, que rir de um abajur apagado não é comparável à loucura de perder a voz em nome do patrão nosso de cada dia.
Mas onde está Kika? Está no momento certo de jogar com o público; está no distancimento que consegue fazer até mesmo crianças, que não são adultos em miniaturas, pensar que aquilo é sonho e que elas já sonharam e podem sonhar; está nos pais constrangidos e risonhos em pensar que de fato há algo além da tela do coputador e dos jogos eletrônicos no cotidiano de seus filhos.
Resgatar o pensamento é voltar a sonhar, e por mais que a estória pareça longa para crianças sempre cansadas e impacientes, nada impede que no fim do espetáculo uma grande festa seja feita com os brinquedos artesanais deixados na entrada do teatro e que por incrivél que pareça nem sequer foram notados pela maioria apressada de espectadores na entrada deste frio lugar.
Falta alguma coisa? Falta que os conceitos tomem vida e se permitam sonhar em nossos complexos pensamentos do dia-a-dia; falta que encontremos Kika seja no palhaço do circo ou mesmo numa velha senhora que nos encanta toda noite a oferecer docinhos e a dizer que tudo vai dar certo; falta que o Marionete do Homem mais medroso do mundo mexa as pernas – se bem que juro que ele continua andando e viajando em seu balão até agora. *
* Uilson Júnior Francisco Fernandes Observação é afeito às letras, à filosofia, ao teatro de rua e aos mamulengos.
Observação: esta crítica é postada após a Mostra por falha do moderador, o jornalista Valmir Santos, que se perdeu no fluxo de mensagens na sua caixa de email. Felizmente, nunca é tarde para fruí-la na eterna efemeridade do teatro.
ADREANA OLIVEIRA
Ao ler a sinopse de “Doralinas e Marias”, do grupo Engenharia Cênica de Salvador (BA), apresentada na 6ª Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia, algumas pessoas podem não se interessar. Mas ao chegar, sem expectativas, ao teatro, existe a chance de se surpreender com uma história que, mais do que falar da mulher, traz a relação que temos com aquele que dorme de olhos abertos: o tempo.
Doralina (Meran Vargens), tem uma alma torturada pela ausência de uma face: a da própria mãe, que morreu aos 17 anos, durante o parto de Doralina. As amarguras desta mulher de 53 anos são conhecidos por sua neta, Alice (Daniele França). As torturas de Sophia, papel na Mostra da diretora Cecília Raiffer, também estão no diário.
“As palavras ditas podem ser apagadas pelo vento, as escritas ficam, exorcizando o presente frágil.” Passado, presente e futuro ganham corpo em Miguel, de Luiz Renato, que representa o tempo. A cada 17 anos uma tragédia se abate sobre essa família.
“Cantar é sempre um problema”. A canção lembra a chegada da tempestade que levou o marido de Doralina. O vento traz a lembrança do desaparecimento do marido de Sophia, o mesmo vento que pode levar a jovem Alice, de 17 anos, embora. Ela quer voar.
Incorporado ao figurino de Sophia, uma trança gigantesca dava um ar de Rapunzel e um peso a mais para a personagem, peso que ela não levaria por muito tempo. No vestido de Doralina, muitos bolsos para carregar o diário, folhas para o chá, uma caneca, mas não tinha como preencher um espaço com uma fotografia da mãe, Doralice. Alice tinha um vestido inspirado na Alice de Lewis Carroll. Seria ela a primeira a fugir daquela maldição?
A casa que envolve o jardim, ou o jardim que envolve a casa, a árvore de goiabas vermelhas e azuis, a chaleira e o regador suspensos e usados de forma pouco racional e um bambolê transformado na lua que Alice queria visitar fazem parte de um cenário pouco atrativo.
Porém, o texto, que para alguns dos cerca de 200 espectadores que estavam no teatro Rondon Pacheco, soa repetitivo, toma uma proporção diferente para cada um, mas parece que dialoga com a maioria, já que aplaudiram de pé o espetáculo.
Quando Doralina dorme, deixando cinco páginas em branco no diário, você acorda. Aquele sorriso se apaga, a amargura da personagem, que não derramou uma lágrima, continua a incomodar e você se pergunta como você tem lidado com o tempo nesta morte nossa de cada dia.
Valmir Santos
Jornalista e pesquisador do teatro
O espectador de Uberlândia que assistiu ao espetáculo “Comunicação a Uma Academia”, do grupo Club Noir, na abertura da Mostra de Teatro, vai deparar-se com uma cena radicalmente oposta em “Inveja dos Anjos”, montagem da Armazém Companhia de Teatro escalada para o encerramento.
Se a produção paulista prima pelo minimalismo, o projeto do coletivo do Rio arrebata pela partitura de tom espetacular que o diretor Paulo de Moraes imprime à cena, uma espécie de teatro total que não desequilibra suas fontes de base.
A imanência poética das criações da Armazém pode ser atribuída à simbiose absoluta entre ator, palavra, cenografia, luz e trilha sonora. Ponha uma boa história nas mãos de Moraes e verás que linguagem ele é capaz de conceber para comunicar-se com o público. Feito em grande parte tributário do excelente núcleo de intérpretes (Patrícia Selonk, Simone Mazzer, Thales Coutinho e demais companheiros).
Após visitar recentemente Bertolt Brecht e Nelson Rodrigues, a Armazém volta-se às reminiscências paranaenses (nasceu em Londrina 22 anos atrás). Aspectos autobiográficos juntam-se aos voos ficcionais na dramaturgia hibrida de Moraes e do poeta Maurício Arruda Mendonça. Eles radicalizam as formas narrativa e espacial para falar de laços de família, amizade, amor e dor.
A ação dramática é determinada pelo espaço cênico atravessado por trilhos de trem, uma imagem da infância de Moraes materializada como o lugar do entroncamento para a narrativa fragmentada.
Desde o início, nota-se que a suspensão da realidade é literal. O drama deseja estimular o espectador a “editar” enquadramentos, como se lhe coubesse acompanhar o movimento dos vagões no filme da vida que passa ligeiro em situações-limites.
Com “Inveja dos Anjos”, a 6ª Mostra chega ao fim após 11 dias e 11 noites de uma programação pautada pelo estranhamento e pela pluralidade (ambos bem-vindos) nas formas, conteúdos e temas. Citam-se os exemplos das montagens de “Manter em Local Seco e Arejado”, do Grupo [PH²] Estado de Teatro, dirigido por Rodrigo Batista, e “O Caderno da Morte”, da Companhia Zero Zero, por Alice K.
Mesmo ocupando o assento frontal de um teatro à moda italiana, o espectador foi instado, quase sempre, a contracenar de outra maneira, a desmontar as próprias convenções do olhar, do sentir e do fruir o teatro. E isso não é pouco.
Por Adriana Muniz Retamal
A “racionalidade” humana vista através da domesticação de um macaco.
A peça “Comunicação a uma Academia”, interpretada por Juliana Galdino e Gê Viana, tratou com equilíbrio, nuances e um conjunto cênico elaborado a verdadeira arte teatral. Como todo bom texto de Kafka, poderíamos pensar: “Ah, mas também é Kafka né? Muito pesado…”.
O diretor Roberto Alvim (que também fez cenário, iluminação, figurinos e trilha sonora) primou pelo compassado ritmado das cenas com um minimalismo temático afrancesado, fazendo jus ao nome Club Noir. Todo o clima criado nos dava a impressão de que também estávamos numa jaula Obviamente, bem decorada, como muitos cenários “de nossas vidas”.
A atuação de Juliana Galdino é de um talento e de uma poesia visual que denota o total profissionalismo da atriz. A transformação do macaco em ser humano é evidente e pela grande atuação chega até a ser justificável. Seu trabalho possui um nível vocal muito elaborado e de total entrega. Por um momento, já sabia quantos atores seriam em cena, mas, mesmo assim, estava à espera da entrada de Juliana. Eis um elemento fundamental, quando um ator realmente se entrega ao personagem: era possível ver nos olhos do macaco-gente todo a dor da transformação, uma tristeza fundada no total abandono de sua natureza.
Existem outros elementos do conjunto cênico que merecem destaques: a separação cênica da platéia, uma corda que ora nos colocava como observador ora como observados; o soldado quase inútil (mas necessário para controlar o instinto animal) militarmente movimentando-se; a ausência de luz criando um “silêncio visual”, luz essa que “enjaulava” o macaco-gente; e uma parede ao fundo com seu papel de parede francês que dava uma sensação claustrofóbica.Por alguns momentos tive a impressão que “no espelho kafkiano” me enxergava, uma vez que: será que somos realmente livres?
Uma peça para se assistir mais de uma vez, e se faz necessário vê-la na montagem original, em São Paulo, na qual apenas 48 pessoas assistem ao espetáculo. A adaptação para a Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia SESC-ATU foi extremamente carinhosa com o público local, trazendo até nossa cidade um espetáculo profundo, denso e sensivelmente criado, mas que se perdeu um pouco na profundidade do Teatro Rondon, principalmente para quem estava nas últimas cadeiras. Ainda assim, o esforço de Juliana para projetar a voz ao fundo foi notável.
É importante enfatizar o esforço da ATU (Associação de Teatro de Uberlândia) no sentido de trazer peças de diferentes estilos para atingir públicos diversos, almejando a democracia da cultura e trazer o foco para a cidade de Uberlândia, tirando do famoso eixo Rio-São Paulo. Ainda com muitos detalhes a melhorar.
DO ESPECTADOR
O público honrou à altura o nível do espetáculo emprestando seu silêncio arrebatador. Sinceramente, antes de ir à peça, lendo o texto de Kafka, originalmente um conto, pensei: vai ser difícil! Mas o público uberlandense mostrou-se atento, silencioso e muito educado, o que é fundamental para o teatro, o respeito ao trabalho de todos necessita dessa atenção e desse carinho. Os profissionais envolvidos ficaram meses criando todo e qualquer detalhe para que a atmosfera “real” fosse montada para nosso prazer, mesmo que ainda sejam prazeres questionadores, como é uma montagem de um texto dessa profundidade.
Ainda temos muito o que aprender com Kafkas, Julianas, Robertos, Marias… E principalmente com os macacos, aqui representando a classe “irracional”. Mas são espetáculos assim que nos movem e contribuem para questionamentos sociais e pessoais, alguns do tipo: será que o ser humano realmente evoluiu? Essa domesticação desenfreada dos animais é boa? Ou nos espelhamos nessa domesticação e vemos como somos bons em tudo, até em transformar macacos em homens? Bom, que cada um tenha os seus questionamentos. E aí vai mais um: você já se olhou no espelho kafkiano hoje
* Adriana Muniz Retamal, amante das artes e designer, é espectadora crítica participante da oficina com o jornalista Valmir Santos na Mostra.
Por Talita Valarelli
Doralina, Doralice, Sofia e Alice. Mas cadê a Maria? Bem, a Maria não apareceu, talvez chegou atrasada ao espetáculo e não a deixaram entrar. Mérito da organização pela sua pontualidade britânica? Não exatamente, uma vez que as mulheres à beira de um ataque de nervos vieram dar o ar da graça depois de quase meia hora de espera, fumaça artificial e muitos espirros “riníticos”.
Sem deixar que isso abatesse o público, acostumado aos atrasos, o espetáculo se inicia e por um momento promete ser memorável. A questão é que nem tudo é o que parece.
Com um cenário simples, aparentemente funcional e remetendo a devaneios, figurinos óbvios e uma iluminação pontuada, quase chapada, três gerações de mulheres solitárias passam 50 minutos dizendo lirismos repetitivos e fora de compasso, enquanto um personagem representante do Tempo tenta reproduzir movimentos corporais, algo entre a dança contemporânea e a viagem de ácido do já senil elenco de “Hair”.
O texto se perde logo no início. A falta de amarras deixa pensamentos soltos e perdidos no ar, uma cólica sentida aqui, uma mãe inexistente ali, uma receita de chá de não sabemos o que e… Será o fim? Não, não, logo a luz se intensifica e dá-lhe mais pensamentos soltos sobre o dia ser camomila ou boldo com chá verde.
À medida que a peça avança seu ritmo continua parado e nada de novo acontece, uma vez que o conflito não se estabelece, aliás, nem chega a aparecer, transformando o tempo, aquele do relógio que segue o horário de Brasília, em algo pesado e que se move lentamente e com dificuldade, contrapondo com o Tempo, personagem da trama, que voa como uma borboleta com bronquite.
Ao final do espetáculo fica a sensação de onde foi parar o Teatro com seus questionamentos mesmos que intrínsecos, além da pergunta que não quer calar, o que afinal foi feito de Maria?
* Talita Valarelli é atriz e espectadora crítica participante da oficina com o jornalista Valmir Santos durante a Mostra.
Por Roseli Maria Battistella
Em setembro de 2001 Juliana Galdino, dirigida então por Antunes Filho em “Medéia”, pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT), comentou em entrevista para o jornal “Folha de S.Paulo”, no caderno “Ilustrada”, sobre sua personagem: “Dentro de contextos-limites, as palavras adquirem outras camadas, cada uma traz sua musicalidade”.
Passados nove anos e agora em outro estágio de sua carreira, na instigante peça “Comunicação a uma Academia”, do grupo Club Noir, dirigida por Roberto Alvim, Juliana atinge um apuro técnico incontestável que lhe rendeu a indicação como melhor atriz ao Prêmio Shell São Paulo de 2009.
Mais uma vez ela encontra novas camadas em nuances de voz conferidas ao símio que relata a uma academia como se tornou humano. Um conto do livro “Um médico rural – pequenas narrativas”, de Franz Kafka, publicado pela primeira vez em 1919 e que permanece atual, pois suscita questões reflexivas recorrentes ao nosso mundo contemporâneo, principal motivo pela escolha da sua montagem sem adaptações pelo Clube Noir.
A utilização de um cenário limpo funciona bem: uma parede manchada de verde musgo, um cervo empalhado num canto, um caixote de três lados e um cordão de isolamento separando o público da cena. Elementos simples, mas que vão além do decorativo. O fundo remete realmente às paredes austeras das clássicas salas de instituições conservadoras, o caixote lembra a todo instante do local de onde veio o macaco.
Uma corda nos separa do animal de outrora – quem é o prisioneiro?Nós ou ele? O cervo empalhado imponente é um troféu de caça, sinal de “superioridade” da raça humana sobre outros seres. Troféus, como são todos os diplomas e prêmios que o homem coloca em suas paredes para mostrar sua superioridade aos demais, títulos que o lembram que dentro de seu condicionamento ele é o melhor.
A iluminação colabora com imagens de uma estética primorosa, acentuadas por blackout a todo instante, mas que pontuam o texto com silêncios .Tudo é muito simples, mas significativo, maquiagem, figurino e elementos de cena, nada é feito ao acaso. Percebe-se a preocupação com os detalhes. Uma encenação que chega ao minimalismo pela economia de gestos da atriz que, na imobilidade de seu corpo constrói uma partitura sonora superior.
Até o guarda que pode parecer desnecessário à cena, já que não emite som algum e simplesmente coloca e tira uma corda de isolamento e se mantém na mesma posição, tem uma função. Ele é a personificação de força, como são todos os guardas, mantendo a ordem vigente. Muitas vezes invisíveis, estão armados e entram em ação para qualquer quebra de normas e padrões estabelecidos pela sociedade, lembrando que devemos andar conforme nosso adestramento nos permite
“Eu não tinha saída mas precisava arranjar uma, pois sem ela não podia viver”, avisa o narrador, a certa altura. ”Não, liberdade eu não queria. Apenas uma saída; à direita, à esquerda, para onde quer que fosse…”
Lastima–se o macaco que agora, considerado humano perde a liberdade da sua essência. Quantas vezes perdemos nossa essência e nos afastamos da nossa natureza?
Creio que Roberto Alvim, “o diretor”, a cada nova montagem se aproxima mais da sua.
“E eu aprendi, senhores. Ah, aprende-se o que é pre¬ciso que se aprenda; aprende-se quando se quer uma saída; aprende-se a qualquer custo”.
* Roseli Maria Battistella é atriz, pesquisadora do teatro e espectadora crítica participante da oficina com o jornalista Valmir Santos durante a Mostra.
Por Eduardo Humberto Ferreira
O espetáculo “Doralinas e Marias”, do grupo Engenharia Cênica, de Salvador, trouxe para a Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia outra visão do fazer teatral que fomenta uma reflexão sobre a cara ou estilo que o evento possa assumir, ou talvez significar essa busca de identidade.
Foi um espetáculo que gerou incômodos em vários momentos, a começar pela entrada da platéia que, envolta à crua luz de serviço e de muito incenso/fumaça, foi tomando seus lugares. Começava aí outro momento guiado pela sorte, pois quem optou por se acomodar mais ao fundo do teatro logo percebeu ter feito uma má escolha, uma vez que a não-ressonância e projeção dos atores mal chegavam às primeiras fileiras, estas mesmas que inicialmente torciam para que tudo desse certo no decorrer do espetáculo.
O que chama a atenção em alguns momentos isolados são as imagens construídas em cena, quando acontecia podia-se notar uma relação mais viva dos atores com eles mesmos, como o cenário, a iluminação e até mesmo com o figurino, mas não havia um suporte que pudesse sustentar isso além de alguns segundos.
A marcação de cena mostrava-se muito insegura e sempre quebrava a ação que tentava de alguma maneira surgir, mas não se sobressaía, deixando clara a ausência de conflito, levando o espetáculo a ser marcado pela linearidade.
O trabalho de corpo é visivelmente precário, com movimentos incompletos que prejudicam a plasticidade da cena, o que de certa forma deixa o espectador inseguro e facilmente o trabalho como um todo possa cair em desatenção.
A figura do Tempo, com a caracterização, movimentação cênica e relação com as demais personagens perdeu força como um elemento poético que poderia ter sido, não se impondo como um agente determinante dentro do contexto da encenação proposta.
* Eduardo Humberto Ferreira, estudante de teatro, é espectador crítico participante da oficina com Valmir Santos durante a Mostra.
Por Emilliano Freitas
Não consigo desvencilhar alguns personagens de seus atores. A Renata Sorrah, por exemplo, nunca vai deixar de ser a Nazaré, assim como o Wagner Moura será sempre o Capitão Nascimento, o Marcos Frota é o eterno Tonho da Lua. A partir de hoje, a Juliana Galdino vai ser o macaco de “Comunicação a uma academia”, peça baseada no conto “Relatório a uma acadêmia”, de Kafka. Por mais que ela ainda ganhe muitos prêmios Shell, faça milhares de outros trabalhos, na minha memória ela vai continuar sendo a Monga, a mulher macaca, que transformou-se eternamente no macaco e não adianta jogos de espelhos pro feitiço mudar. Dá medo!
Convidados para abrir a Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia SESC-ATU, o Club Noir apresentou sua peça de câmara em um teatro de 370 lugares (se bem que só 80% de suas cadeiras estavam ocupadas, e olha que o comitê de combate à gripe suína não interveio dessa vez). Não posso dizer como a relação entre espectadores e o macaco se dava em um espaço menor como é apresentado em São Paulo. Posso apenas fazer suposições que me levaram a pensar nas perdas sofridas pelo espetáculo nessa apresentação, gerando perguntas como: a distância entre palco/platéia esfriou as relações entre as partes? O esforço da atriz em manter sua voz macacal para ser ouvida pela temida velhinha surda da última fileira atrapalhou o andamento do espetáculo? Será que a curadoria/organização pensou nos problemas que poderiam ser gerados nesse espetáculo em um espaço do tamanho do Teatro Rondon Pacheco?
Em minha poltrona, distante do macaco que aprendeu a ser homem para escapar da morte (ou do jardim zoológico), a relação que se estabeleceu foi parecida com a que o texto de Kafka supunha aos bichos de teatro de variedades. Parecia que tudo não passava de um show de virtuosismo de uma atriz extremamente talentosa, beirando a perfeição técnica com sua voz e expressão cênica, num registro vocal que quase cantava o conto kafkaniano na íntegra. Todas as marcações cênicas pareciam milimetricamente calculadas, como se o Roberto Alvim dirigisse sua atriz, vigiando os seus passos com uma trena fazendo cálculos de onde seria melhor ela ficar pra luz se enquadrar melhor, com um transferidor medindo a inclinação perfeita pro rosto da atriz não atrapalhar no conjunto e harmonizar com a cabeça de veado presa na parede cor da selva.
E o texto de Kafka nisso tudo? É um pano de fundo pra peça, não porque ele é desimportante, mas porque assume um papel de dalit – o intocável. Então, lembro da Gabriela Mellão na Bravo de Janeiro/2010 afirmando que “a palavra funciona como força ordenadora na escuridão” no trabalho de Roberto Alvim. Posso estar sendo pretensioso ao interpretar a jornalista, mas sua frase me leva a pensar que o texto de Kafka ordena a encenação, e só tem a função de ser base pruma “obra de arte” perfeita. E minhas impressões do conto do Kafka que já conhecia das leituras pro vestibular continuam as mesmas após a apresentação (a não ser que agora o macaco tem uma voz estranha).
E quando saio do teatro fica parecendo que paguei o ingresso pra ver como é que uma mulher vira um macaco, como aquelas pessoas que saem do circo felizes por terem visto um macaquinho andar de bicicleta. O resultado final enche meus os olhos, e só.
P.S.: Durante a edição desde texto, a editora Juli Codognotto fez um comentário/sugestão, deduzindo algumas coisas que poderiam ter ocorrido durante a apresentação. Como suas idéias se encaixam no contexto em que a obra foi apresentada, achei por bem publicar parte do seu parágrafo, ao invés de usurpar suas idéias.
“Lembrando que o macaco está justamente falando a cientistas/acadêmicos como numa conferência ou coisa assim. É aí que talvez haja prejuízo nessa palavra unicamente como força ordenadora e só, porque sem adaptar ao nosso tempo, eles acabam reduzindo o potencial crítico da flexibilidade, da adaptabilidade da obra no contexto de sua apresentação: é o reinado absoluto da técnica, ignorando relação com público, lugar e tempo presente e, porque não, ignorando os corações e cérebros ali presentes. Nesse “apego” pelo respeito ao autor e pela auto-suficiência da atriz em sua busca pela perfeição que vai no sentido oposto pela busca de comunicação com alguém – academia ou não. Tendo isso em vista, uma mostra de teatro é perfeita pra evidenciar o tamanho da oportunidade de crítica, atuação política, comunicação e sensibilização de público, etc., etc., etc., que se perde quando se opta por fazer uma puta montagem de um puta texto mas só pra si mesmo.”
* Emilliano Freitas é ator, colaborador da Revista Bacante, site onde o texto acima foi publicado originalmente, em 13 de março de 2010, e espectador crítico participante da oficina com Valmir Santos durante a Mostra.
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